Mensagem dos Autores

Motivados pelo desenvolvimento da Odontologia Legal no Brasil, os autores tiveram a iniciativa de agregar mais uma ferramenta de convergência da classe pericial odontológica com o intuito de divulgar notícias, eventos, trabalhos científicos, além de contribuir para a discussão e troca de experiências entre os praticantes da perícia odontolegal. Contamos com todos para tornarmos este Blog um centro de encontro e de crescimento profissional.







quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Professor Moacir da Silva - Um pouco da sua vida




Muitos, me incluo, começaram a ver o que é a odontologia legal por seu livro o Compêndio de Odontologia Legal. Pessoalmente tive algumas oportunidades de vê-lo lecionar e não me surpreende ver tantos relatos sobre sua capacidade e humildade. O Blog Odontologia Forense disponibiliza aos seus leitores um artigo publicado em 2009 que discorre sobre a vida e a obra do professor Moacir da Silva.

Originalmente publicado em : Odontologia e S 18 ociedade 2009;11(2):12-18.
Link para o arquivo em PDF : http://www.fo.usp.br/revistas/odontologiaesociedade/index_arquivos/ods2009_2_2.pdf

Entrevista concedida à Biazevic MGH*


“Eu entrei na Faculdade de Odontologia em 1960, era Faculdade de Farmácia e Odontologia, e naquele tempo não tinha FUVEST, o vestibular era composto de uma prova escrita, que eram 3 pontos sorteados, A, B e C, e quem passasse nessa prova escrita ia para o exame oral. Quando ia fazer o oral, era dividido em grupos, você fazia, por exemplo hoje, química; e a prova de física na semana seguinte. Só na semana seguinte é que você ia saber se passou em química. Então, permanecia aquela tensão, não era brincadeira... era uma prova completa, tinha que escrever mesmo, o avaliador dava o tema, e você tinha que discorrer sobre aquele ele, não tinha teste, eram perguntas.
Eu me lembro de um fato curioso que aconteceu. Tínhamos prova química, física, português e biologia. E minha prova de português foi interessante. Era uma banca de 3 professores catedráticos, caí com o Professor Cícero Brito Vianna, ele era catedrático de prótese buco-maxilo-facial, e era ele quem examinava português. Quando eu cheguei, ele falou: sorteia o ponto. Eu sorteei, e saiu “coletivos”. Aí ele fez a pergunta: “o senhor vai me dizer o que é atílio”. Eu, por sorte, tinha estudado muito no cursinho, e havia lista grande de coletivos lá. Aí eu falei: “Professor, atílio é um conjunto de espigas de milho.” Ele tomou até um susto!! (risos), pois ele pensou que eu não ia responder. Quando eu respondi, ele falou: “vai embora, vai!!”

Todas as bancas, de biologia, química, física, eram compostas ou por professores da farmácia ou por professores da Odontologia. Agora, imagina falar de física, química, com farmacêutico... olha, onde eu passei maior apuro foi na prova de química. Eram 3 professores de química da Farmácia, que entendem química de cabeça para baixo, não foi fácil!”
MG: Aí o senhor iniciou o curso de Odontologia...
MS: 1º ano, 2º ano, e quando se chegava no 3º, haviam 2 clínicas na faculdade, uma era a clínica do Professor Cervantes, e outra era a clínica do Professor Paulino Guimarães. E cada estudante que chegava ao 3º ano pegava, ou a clínica do Professor Cervantes por 2 anos, ou a clínica do Professor Paulino por 2 anos.
MG: Qual a diferença entre elas?
MS: Eram orientações diferentes. Eu fui para a clínica do Professor Paulino. Para você ter uma idéia, quando a gente fazia um preparo cavitário, ele vinha com uma lupa (esse óculos existe ainda aqui na Faculdade, quando montei o Museu estava lá, não sei se ainda está), ele tinha um óculos e vinha com ele para ver exatamente a forma correta do preparo, ele era exigente demais.
MG: Ele avaliava de acordo com as normas de Black?
MS: Sim, todas com instrumental de Black. Não tinha alta rotação, era baixa rotação e instrumental de Black. Usávamos a enxada, para preparar a cavidade...tinha que clivar direitinho... A seleção de pacientes era diferente; tinha o corredor, o estudante da Faculdade é que saía no corredor da clínica escolhendo os pacientes. Depois é que foi criada a triagem. O tratamento era gratuito.
MG: E como era ser estudante?
MS: Não tinha jeito. Na época, os catedráticos mandavam. Para você ter uma idéia, tinha sala de aula em que, quando o professor entrava, a gente levantava, ficava todo mundo em pé, em respeito ao professor. Agora, o pessoal também aprontava, estudante é fogo (risos)!
Quando a gente entrava na Faculdade, existia, para a calourada, o dia da passeata. Ela era feita no centro de São Paulo! Com autorização da divisão de trânsito, a gente saía em passeata e percorria o centro inteirinho.
MG: Todos os ingressantes da USP ou só os da Farmácia e Odontologia?
MS: Todos os ingressantes da USP. A gente ia todo pintado, rasgado (risos), era uma coisa bem alegre. A cidade era outra, dava para fazer essas coisas. Você imagine hoje! Nós saíamos do Bom Retiro e íamos à pé.
MG: Na sala eram quantos colegas?
MS: Eram 80 alunos no diurno e 50 no noturno. Na minha turma acho que eram só 8 mulheres. Eu fazia o diurno. No noturno tinha 1 mulher só.
MG: E os estudantes tinham que procurar por outras escolas para namorar?
MS: Por sorte, nós tínhamos um colégio em frente, o Colégio Santa Inês (risos!) Os namoricos eram feitos ali! Ou então, quando tinha festinha, eu estava no Centro Acadêmico, e praticamente todo sábado a gente fazia um bailinho para descontrair um pouquinho, já que tínhamos aula aos sábados, pela manhã e no período da tarde. A gente entrava em contato com o Sedes Sapientiae (Faculdade de Letras), e vinham as meninas de lá, para participar da festa. Fazia parte da brincadeira!
MG: O senhor participou do Centro Acadêmico?
MS: Eu comecei como secretário, depois fui para secretário geral, e depois Presidente, de outubro de 1962 a outubro de 1963. Tem um fato interessante aí; tinha acontecido o movimento estudantil na época; havia necessidade de um representante estudantil nas Congregações, e foi aí que eu fui o primeiro representante na Congregação da Faculdade de Odontologia (em 1962 separou-se o Curso de Farmácia do de Odontologia). Fui o 1º presidente do Centro Acadêmico, e 1º representante, garoto ainda, entrando na Congregação de Catedráticos!
MG: E isso aproximou o senhor dos catedráticos da FOUSP?
MS: Eu era visado. Presidente do Centro Acadêmico era visado. Na clínica, o Paulino ficava de olho em mim, às vezes eu tinha que sair para resolver alguma coisa, eles ficavam de olho... Mas aquele fato da representação na Congregação foi interessante porque me obrigou a estudar o Estatuto da Universidade e o Regimento da Faculdade. Eu sabia de trás para a frente! (risos) Durante as Congregações, eu me posicionava, citava o artigo tal do Estatuto, e isso me valeu uma coisa: o Prof. Arbenz, que era o Catedrático da Legal (Odontologia Legal), observando isso, me convidou para ser assistente dele, porque na época o professor era convidado, não tinha prova. E o gozado é que na época eu tinha convite para ser assistente na Prótese, Odontopediatria, Cirurgia. E quando o Prof. Arbenz me convidou, não sei, eu pensei: “Eu vou!” Não tive dúvida, e na prótese, eu ia começar ganhando! Deixei de ganhar e vim para a Legal. O Prof. Arbenz era uma pessoa de uma cultura, ele era médico e dentista, podia-se discutir qualquer coisa com ele. Meus colegas me chamavam de louco!! Eles diziam: “Você vai escolher isso aí?” (risos) E fui sem ganhar nada.
MG: Muitos de seus colegas de turma seguiram a área acadêmica?
MS: Muitos, na minha turma, muita gente. Só para citar alguns nomes: Professor Guedes (Antonio Carlos Guedes-Pinto), José Carlos Mesquita Carvalho, na Endodontia, o Rubens (Wey Filho), na Histologia, o Luís Longhi, na Prótese, o José Ceratti Turano, o Wilson Garone Filho (Materiais Dentários), a Renato Giufrida (Histologia), a Winfred P. Brink (Prótese Buco-Maxilo-Facial), a Odila Moreira da Fonseca (Odontopediatria), Dan Fischman (Dentística?), Elson Silveira, Alael de Paiva Lino (Ortodontia), Wanderley dos Santos (Cirurgia).
MG: O aluno queria seguir área acadêmica, ou queria sair, montar consultório?
MS: Quando era convidado para a área acadêmica, era uma honra. Agora, naquele tempo, era consultório, não havia opções de emprego, era muito raro.
MG: E não havia outras Faculdades...
MS: Naquele tempo era a Odontologia da USP, ou você entrava aqui, ou ia para o interior. E no interior, a gente tinha Lins, Ribeirão Preto e Piracicaba. Depois é que começou a aparecer São José dos Campos, Araçatuba; Bauru é da década de 60.
MG: E o senhor então foi convidado para ser Assistente... Como eram as atividades?
MS: Havia um corpo docente: o Professor Arbenz, que era médico e dentista; o Professor Armando Muucdcy, que era médico e dentista; o Professor Meira (Affonso Renato Meira), médico; a Professora Catarina (Cocicov), que era advogada e dentista; o Professor Dirceu dos Reis, advogado e dentista; e o Professor Marcelo Kneese, que era dentista. E eu entrei, dentista. Esse convívio me valeu muito, porque eu tinha, não aquela visão técnica da odontologia, mas aquela visão da medicina geral, isso me ajudou muito. Bom, formei em 63; aí, trabalhei 2 anos como voluntário, e no dia 7 de dezembro de 1965, saiu minha nomeação para professor assistente.
MG: Durante esse período de 2 anos, além das aulas como voluntário, o senhor exercia outras atividades na Odontologia?
MS: Minha clínica sempre foi na Vila Mariana, e tive um emprego no Sindicato dos Metalúrgicos. Vou te explicar por quê: quando me formei em 63, veio em seguida a Revolução de 64, e no sindicato dos metalúrgicos, era um foco danado, e muita gente foi mandada embora, e eles passaram a precisar de dentista, foi quando nós entramos lá, éramos 3 colegas. Agora, antes disso, no começo de 64, aqui em SP havia 2 prontos-socorros (odontológicos), Pronto-Socorro Dentário Bandeirantes e o Pronto-Socorro Dentário Augusta. Eram serviços 24 horas. E aí, como eu não tinha consultório ainda, eu comecei a trabalhar lá.
Nós éramos em 4 colegas, e trabalhávamos lá, 3 deles aqui da USP (Henrique Cerveira Neto, que era professor de prótese, o Prof Walter Genovese, e eu), e 1 colega de Uberaba-MG. Nós tocávamos todo o serviço, 24 horas por dia, durante a semana, sábados, domingos e feriados, era uma loucura total. Eu nunca me esqueço de um fato que ocorreu, eu estava de plantão, e nós tínhamos equipamento para transportar até raio-X, para atendimento domiciliar. Veio um telefonema do Hospital São Jorge, que ficava na Rua da Consolação. “Nós estamos precisando de um dentista aqui.” Eu respondi: “Aguarda, a gente está a caminho” Eu cheguei lá, era mais ou menos quinze para a meia-noite, o médico de plantão era um ginecologista, que me disse: “Moacyr, eu não entendo nada de boca.” A mulher estava na maca, e eu fui examinar. Quando examinei o maxilar, estava tudo solto, ela tinha entrado com o carro atrás de um caminhão, era uma Le Fort. E eu, na Faculdade, só tinha feito isso em gesso. Quando eu vi aquilo, eu falei, “Meu Deus!” A gente tinha os fios, material para banda e tal, e comecei a fazer as amarrias, fiz depuração, puxei tudo direitinho, travei tudo. Comecei à 1 hora e fui terminar às 5 e meia da manhã. E a mulher, anestesiada. Você imagina, eu era um moleque, tinha saído da faculdade. Um enfermeiro também me ajudou. Bom, terminei às 5:30h, fui para o Pronto-Socorro, prescrevi o que tinha que prescrever. Aguardei até mais ou menos 7:30h, e aí procurei na lista telefônica o telefone do Professor J.J. Barros, que tinha sido meu professor de cirurgia. Eu disse: “Professor Barros, me perdoe estar ligando para o senhor, mas o senhor teria condições de passar no Hospital São Jorge comigo?” “Mas o que aconteceu, Moacyr?” “uma paciente teve Le Fort, fiz as amarrias, puxei, e quero uma opinião sua para ver se está tudo em ordem, eu estou preocupadíssimo” “Moacyr, fica tranqüilo, eu vou” Eu não tinha carro, subi de ônibus, fiquei esperando; quando ele chegou, examinou, eu tinha também pedido radiografias. Ele disse: “Moacyr, meus parabéns, está ótimo, fica tranqüilo.” Que alívio! Aquele Pronto-Socorro, eu vou ser sincero para você, foi uma escola para mim. Aparecia também lesão de tecido mole, agressão, acidente, tinha de tudo lá. A gente tinha que mandar fazer o B.O. (Boletim de Ocorrência) primeiro, para não ter problema.
MG: Nesses 2 primeiros anos de trabalho, com as atividades de professor assistente voluntário, pronto-socorro, de onde vinha seu meio de subsistência principal?
MS: Meu principal meio de subsistência era o sindicato. Era um salário fixo, e por sorte, ganhava-se razoavelmente bem. Eu entrava às 16 e saía às 20 horas, todos os dias. Então eu tinha que acertar meus horários com os do Pronto-Socorro. Aí com esse dinheiro que eu fui ganhando lá, em 1965 eu pude montar meu consultório particular. Nesse momento eu saí do Pronto-Socorro. Durante o dia a gente fazia clínica lá, normalmente. E teve um outro fato curioso: você já ouviu falar do Professor Alfredo Reis Viegas? E a professora Ivete, sua esposa? Aqui na Faculdade de Odontologia da USP, houve um concurso para professor de técnica odontológica. E concorreram 3 professores, e um deles era o Prof. Viegas. Na sua tese, ele apresentou uma metodologia que ele tinha idealizado para fazer uma anestesia ptérigo-mandibular. Muito bem. Estou contando isso porque eu estava de plantão no Pronto-Socorro, e quem é que me chega no Pronto-Socorro? O professor Viegas e a Ivete, com dor de dente. Quando eu examinei a professora Ivete, era um molar inferior. (risos!) Eu era recém formado, e eu disse: “Professor, eu sei que o senhor tem uma metodologia própria, o senhor poderia fazer a anestesia?” (risos) E ele disse: “O quê? O dentista aqui é você!” (risos) Ele era bravo! Aí eu fiz a anestesia e graças a Deus deu tudo certinho, fiz a pulpectomia, e resolvi o problema da Professora Viegas. Mas são coisas que você não esquece. Quer ver outro fato curioso? Você já ouviu falar do Dener (Dener Pamplona de Abreu, precursor da alta-costura brasileira), um costureiro famoso? Estava de plantão, recebo um telefonema, “Aqui é da parte do costureiro Dener, ele está precisando de um dentista, na residência dele” eu disse “tudo bem, nós cobramos uma consulta, domiciliar é mais cara.” “Não, não, quanto a isso, não há problema!” E toca eu ir lá para a residência do Dener. Era uma bela casa na Rua Pedroso de Morais. Quando eu entrei, ele tava no quarto, sabe aquela cama que tem aquele negócio em cima, uma cortinas, e ele com o gatinho na mão, deitado... Instalei o motorzinho, tirei um raio-X. tínhamos um baixa rotação, raio-X portátil. Aliás, o que aquele R-X, o que emitia de radiação... bom, anestesiei, e abri direitinho o dente dele, mas você imagine eu entrando naquele quarto, ele espaldado por peninhas, com aquele gatinho na mão!! (risos) O Dener faleceu, né? Ele era muito famoso. O pagamento foi tranqüilo e ainda veio com gorjeta, uma boa gorjeta.
MG: Nesse período, como eram as atividades aqui (na FOUSP)?
MS: Tinha a parte teórica e a parte prática. Geralmente, quem dava a parte teórica era o Prof. Arbenz, o Prof. Armando, esqueci do Prof. Mendel (Mendel Abramowicz), também. Mas o Mendel também estava começando, na época. O Meira também, e de vez em quando o Prof. Arbenz me deixava dar uma aula. Mas geralmente, na aula prática, eu ficava lá orientando. A gente mexia muito com antropologia, e tínhamos as aulas práticas. Assistente não era muito de dar aula teórica não, eles não deixavam muito. E na prática, quando a gente dava identificação pelos dentes, eu era o único dentista, o Arbenz mandava eu ministrar esse conteúdo, e eu ficava discutindo os casos da Europa, do Bazar de Caridade de Paris, do incêndio da delegação alemã no Chile... um dia eu cheguei para o Prof. Arbenz e disse: “O senhor me permitiria que, 1 dia por semana, o senhor me liberasse para fazer um plantão no IML (Instituto Médico Legal) de São Paulo?” Ele era muito rígido, ele disse: “Vou pensar.” Na outra semana ele chegou e disse: “Olha, Moacyr, vou te liberar 1 período” Eu dava 6 períodos e com o Prof. Arbenz, eram 6 períodos mesmo! (risos) Foi quando eu comecei a pegar casuística brasileira, e comecei a deixar a aula de Odontologia Legal mais odontológica, e com mais dados do Brasil.
MG: Os professores da cátedra eram, na maioria, médicos. Eles trabalhavam também na Medicina, ou só na Odontologia?
MS: Trabalhavam mais aqui mesmo. Apesar de que eles eram dentistas também. No fim, quando o Prof. Arbenz se aposentou, foi para a Medicina Legal, como professor convidado. O Prof. Meira também, tanto que ele é Titular da Medicina Legal. E, por coincidência, eu fui examinador dele. (risos). Quando eu fiz a minha livre-docência, ele me examinou, aí eu fiz Titular antes, e o examinei. Eu estava te contando que a gente mexia muito com antropologia, em 1968, eu falei para o Prof. Arbenz: “Eu acho que vou tentar fazer um estudo antropológico. Eu tenho conhecimento de uma população que vive em isolamento geográfico no Vale do Ribeira são oriundos da Guerra do Paraguai. Eu queria ver o comportamento do desenvolvimento do crânio desse pessoal.” E aí eu comecei a fazer viagens para o Vale do Ribeira, com meu próprio carro, me embrenhava naquela Serra do Guaraú. Levava meu instrumental para fazer o atendimento odontológico de urgência, e ia medindo os crânios. Fui fazendo o trabalho, fui fazendo a revisão da literatura, e quando foi em agosto de 1971, meu trabalho de tese estava pronto. E naquela época não era obrigado a fazer. Se você quisesse, podia ficar assistente o resto da vida, não era obrigado a fazer tese. Eu comecei a gostar; eu pensei “se eu estou na carreira, eu vou fazer”. Fiz o Doutorado, e tive uma satisfação muito grande, porque quem veio me examinar foi o Professor Flamínio Fávero, o ícone da Medicina Legal. Aliás, outro dia eu estava examinando um concurso na Medicina, e falei: “Olha, tive o privilégio de ter, na minha banca, o Professor Flamínio Fávero.” E fiz o doutorado em agosto de 1971, aqui na Odontologia, na Disciplina de Odontologia Legal.
MG: E os outros professores que trabalhavam com o Prof. Arbenz, tinham doutorado?
MS: O 1º que fez doutorado foi o Mendel. Depois fui eu, depois o Meira. E depois, muito mais tarde, a Catarina e o Dirceu fizeram. Mas aí já era obrigatório. Não existia mestrado.
MG: E a área de Saúde Coletiva, era dada junto?
MS: Aqui era a Cadeira de Higiene e Odontologia Legal. Então, por 6 meses, a gente dava Preventiva. Eu conheci o Mário M. Chaves de ponta cabeça. Sou especialista em Odontologia em Saúde Coletiva, além da Legal. Apesar que hoje eu nem discuto a Saúde Coletiva, pois estou por fora. Vou te contar uma coisa: em 1977, eu já tinha 14 anos de formado, eu já era doutor, todo entusiasmado, Professor Doutor e tal, cheguei para o Prof. Arbenz e disse: “Professor Arbenz, vou me inscrever para a Livre-Docência.” Ele olhou pra mim e disse: “Moacyr, você não está preparado.” E não tinha discussão! E eu fiquei tão chateado, sabe, era jovem, com aquela vontade... Ele disse: “Se prepara que eu quero ver! Se você se preparar bem, eu deixo você fazer” e eu estudei, estudei.... Ele me deixou dar aula o semestre inteiro, só eu é quem dava aula; montei todo o laboratório com os produtos químicos, deixei tudo organizado. Em 1978, eu falei: “Professor, será que eu poderia me inscrever?” Ele disse: “Ah, agora, você está preparado.” E fui. E quem veio na minha banca: outro espetáculo da Medicina Legal, Armando Canger Rodrigues. Ele era professor de Medicina Legal da Escola Paulista de Medicina, depois fez concurso para a Medicina Legal, e assumiu a Cátedra de Medicina Legal (da USP). Uma pessoa espetacular. A banca foi composta pelo Armando (Armando Canger Rodrigues), o Meira (Affonso Renato Meira), o Mendel (Mendel Abramowicz), o Professor Arbenz (Guilherme Oswaldo Arbenz) e o Armando Muucdcy. Dois eram de fora, era o Meira e o Armando, e 3 daqui da Faculdade. Fiquei 4 dias fazendo prova. Eram 5 provas. Para ter uma idéia, na minha prova escrita, escrevi 28 páginas de papel almaço. Quando eu saí, a minha mão estava dormente. Era 1 hora de consulta, e mais 4 de escrever. E eu escrevi, eu tinha tudo na cabeça, tinha me preparado. Aí fui para a prova prática. Quando sorteei o ponto, Antropologia. (risos). A Faculdade era na Rua Três Rios (no Bairro do Bom Retiro). No 4º andar, tinha um laboratório. Aí a banca pegou um jornal e embrulhou um crânio e colocou lá no canto de uma pia, como sendo o local do fato. Disseram: “O senhor vai ter que ver o local em que está esse crânio, e fazer um laudo, dizendo sexo, idade, estatura.” Bom, fui até lá, peguei o crânio debaixo da pia, fotografei, analisei e etc. e tal. Aí pensei, espera um pouquinho. Quando eu abri o jornal, deixa eu ver que jornal é esse, e a data. Num local de crime, um troço embrulhado, anotei. E no meu laudo comecei assim: “Encontrado crânio no 4º andar , no laboratório tal e tal, esse crânio estava envolto no jornal tal, de data tal, nas páginas tais tais e tais.” (risos) O Armando Canger Rodrigues, na hora de analisar a prova que eu tinha escrito, ele falou: “Moacyr, se o senhor não coloca o jornal e a data, eu iria reprová-lo.” Era assim, na lata! Era um dado importante, sob o ponto de vista de investigação policial, porque de repente você tem um crânio embrulhado num jornal que era de outro Estado, ou então um fulano que costuma ler esse jornal... não sei, aquilo lá foi uma luz que acendeu para mim!

Vale ver o artigo completo:

http://www.fo.usp.br/revistas/odontologiaesociedade/index_arquivos/ods2009_2_2.pdf

3 comentários:

Wastania disse...

Adorei esse artigo!!Estou empolgadíssima porque irei participar do meu 1º Congresso de Odontologia Legal, e vou conhecer o Ilustre Professor Moacir. Wastânia Correia.

Wendel Shibasaki disse...

Obrigado pelo elogio ao artigo, Wastania.
Quanto ao Professor Moacir... É uma unanimidade!

Robson Tadeu disse...

Conheci o Prof. Moacyr em Salvador/BA no Congresso de 1998, fiz em 2001 visita de estudos à USP e nos tornamos amigos. Em 2009 tive a honra de compor uma Banca Examinadora com o mesmo na ABO Niterói/RJ.
Robson Tadeu de Castro Maciel
Professor

Postar um comentário

Compartilhe